Preciso de atirar os animais internos para o papel, numa purga diária. Se não os depuro, crescem. E há mais: quero um repositório do que faço, pouco ou muito. Por isso, que se lixe. Cada entrada será o que for e espero que isso ajude.

Entrada#10

Pus-me a imaginar o leitor único, ou ideal, que tantos aconselham como interlocutor. Dizem que escrever apenas para uma pessoa aligeira e dissipa a massa indistinta a que se chama «os leitores». Acontece que a minha secretária é pequena, mal tem lugar para mim. No entanto, como o conselho é bom, arranjei espaço e convidei o leitor a entrar. O gajo sentou-se, remexeu nos papéis, leu algumas notas e de imediato pegou no telemóvel para afagar as redes sociais. Só abriu a boca para se queixar da cadeira, que considerava incómoda. Descartei-o. À minha frente apareceu uma rapariga que se revelou mais interessada na licenciatura em Psicologia, e, – vá lá –, em mim, do que na minha escrita. Achei distracção a mais e também a descartei. Eis um homem que ocupou logo meia secretária com os seus próprios apontamentos. Disse que me faltava rigor e que nas páginas tais e tais encontrara discrepâncias, hiatos e imprecisões, já para não falar do estilo. Eu, que ainda não escrevi as páginas tais e tais, desfiz-me dele, não sem antes pedir desculpa por qualquer incómodo. Foi a vez de uma senhora que olhava para cada rascunho como se tivesse sede daquilo. Pressionado, pedi-lhe que saísse e ela suspirou muito, deixando-me com um peso na consciência. Este jogo de cadeiras continuou até que surgiu uma criança com pouco mais de dois anos. Mal chegava ao tampo da secretária e olhava para mim sem perceber nada, o que me encheu de confiança. Por fim, o leitor ideal. Podia gatafunhar o que quisesse, escrever os maiores disparates. Seguro, li alguns parágrafos. E a criança, raios a partam, desatou a chorar.

Entrada#11

Entrada#9