Preciso de atirar os animais internos para o papel, numa purga diária. Se não os depuro, crescem. E há mais: quero um repositório do que faço, pouco ou muito. Por isso, que se lixe. Cada entrada será o que for e espero que isso ajude.

humhumhum

O filho da empregada fazia humhumhum ao apoiar-se na prateleira. Eu observava-o de longe, encostado à porta do quarto. Os livros estavam ao alcance da mão, que tardava em agarrá-los. A carapinha rareava por cima da orelha direita, onde fora aplicado um aparelho que zumbia humhumhum. O mundo entrava por esse zumbido e pelo toque. À distância, quase quieto, mal parecia cego, surdo e mudo.

Se encostasse a minha orelha à dele, ouviria o zumbido do mundo como o galope de um cavalo que nunca chega. Por vezes encostava, mas aquele humhumhum era tão absoluto que instantes depois descolava a orelha da orelha, assustado. Nessas ocasiões ele agarrava-se aos meus ombros e tentava subir às minhas cavalitas. Tínhamos dez anos, mais coisa menos coisa, só que em mim a idade dera provas e nele não. Crescera de viés.

A mãe viera de São Tomé para nos limpar a casa. Quer dizer, viera de São Tomé para curar o filho, como se Portugal fosse um reduto da medicina, e agora trabalhava e nas horas em que não trabalhava estudava e falava com os médicos. Transportava o filho numa canga à cintura e parecia uma rainha. Os médicos falaram-lhe de um tratamento em Cuba e ela limparia casas em Havana se aqui não lhe curassem o filho. Ia para onde a doença do filho a levasse.

Trazia-o para nossa casa porque não tinha onde o deixar. Sempre que o desabrigava da canga e o deixava no meu quarto, ele desatava a chorar. Percebia-se abandonado e nem sequer conseguia ouvir o som do aspirador, sinal da mãe. Só ouvia humhumhum. E assim agarrava-se às estantes, aos livros, à cama, às almofadas, a tactear a tactear para saber onde estava, onde a mãe o abandonara. À procura do galope que nunca chega.

Metia dó.

Quando escrevo, percebo que as teclas parecem âncoras que ligam à vida. E, no entanto, o som e a fala permanecem. Quanto a ele, mais do que âncoras, os dedos a tactear eram o barco, a viagem. Toda a vida.

Ficava no meu quarto até ao fim da tarde. Dia sim, dia não, enfiava-se na minha cama, rebolava nos lençóis e chupava a almofada até fazer dela uma teta por demais comprida. O meu quarto era o meu quarto, mesmo que ele entrasse na cama, mordesse a almofada e, pior, amachucasse os livros. Eu tentara explicar-lhe que não devia mexer nas minhas coisas. Durante meses quisera afastá-lo dos livros e até da almofada, cuja teta seca se me enfiava nos olhos durante o sono. Segurava-o pelos ombros, dizia-lhe «Isso não, isso não» e encaminhava-o para um canto do quarto afastado dos perigos. Mas ele voltava para junto da estante e da cama, evitando os obstáculos de braços estendidos, como na cabra-cega. Quando chegava à casa de partida, parecia murmurar, em vez de humhumhum, «Isso não, isso não».

Vingava-se. Pegava nos livros de que eu mais gostava, recolhia uma mancheia de folhas e levava-a à boca. Mastigava o papel como fruta acabada de colher. Acredito que lhe soubesse bem, mas enchia-me de raiva. É que nem podia chamar àquilo vingança, não tinha essa satisfação. Quando muito, tratava-se de indiferença. Os livros mantinham a lombada e as capas, mas o miolo desaparecia a cada dentada. Acho que vi tinta escorrer-lhe pela boca.

E agora já disse que o observava de longe, encostado à porta do quarto. A mão tardava em agarrar os livros. Por momentos pensei que a luta de meses chegara ao fim. Nisto, coçou o aparelho, que zumbiu mais alto humhumhum, e estendeu o braço. Em menos de nada, mordia um livro antigo. Não lhe bastava o miolo, queria estragar a lombada. Num repente arrancou o couro, que pendeu arqueado.

Já não metia dó.

Em dois gestos arranquei-lhe o livro da mão e a lombada da boca. Dei-lhe um safanão. Afastei-o para um canto, onde ele soltou um choro numa língua estrangeira. O zumbido do aparelho cessou.

Deitei-me na cama. Sentia o corpo encolher, os braços estreitarem-me. A barriga revolvia-se. Pensava como sentira raiva dele, que só queria pegar nos livros. Pensava que éramos demasiado diferentes e que, se ele não sabia ler, tinha o direito de destruir. E pensava que dez anos era pouco tempo para tudo o que há de mau em nós. O som do aspirador tornava-se mais forte.

Ele levantou-se e apalpou o caminho de regresso. Eu temia vê-lo aproximar-se. Agarrou-se à borda da cama e tacteou até às minhas pernas. Eu, quieto. As mãos dele subiam em pormenor até à cintura, até à barriga, até aos braços, como em busca de um ponto solto. Os dedos chegaram à minha cara e ele alisou a bochecha e tocou nas pálpebras.

Eu queria fugir, não queria sofrer – mas ele aproximou-se, fez humhumhum, e deu-me um beijo na testa.

 

in Cristina, Abril de 2016

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