Preciso de atirar os animais internos para o papel, numa purga diária. Se não os depuro, crescem. E há mais: quero um repositório do que faço, pouco ou muito. Por isso, que se lixe. Cada entrada será o que for e espero que isso ajude.

Desolação

Teríamos muito por onde buscar se cavássemos fundo nas regiões inóspitas da mata humana. Conheci a T. há alguns anos, era ela ainda uma figura de café que metia os olhos em qualquer leitura minha. E muito sabia de leituras, literaturas e da gente que mexe na cultura. A admiração que lhes dava era sem limites, como uma turista, sempre longe e sempre perto. Eu, que só queria tomar o pequeno-almoço, incomodava-me com a T. Mal via aquele metro e meio abrir a porta, vindo sabia lá de onde, ido sabia lá para onde, enfiava-me no livro e fechava-o sobre mim, só que a T. encontrava-me sempre. Sentava-se no banco da frente a folhear o Público, que era o melhor jornal porque ela fora a um evento e conhecera o director, e conversava comigo entredentes. Sim, não, pois claro, respondia na esperança de a calar. Mas a mulher não parava com o seu Agamben, com a Casa Fernando Pessoa, com o último do Herberto. Tornava a literatura numa perseguição, em achados únicos — em conquistas. Por isso lia o jornal à minha frente, para narrar as conquistas. Achava que a podia acompanhar, já que me via com livros, mas eu queria a meia-de-leite em paz, queria antecipar o dia em duas ou três páginas. Queria solidão. Interessava-me lá bem se ela ia para o hospital ou o que era. Repetia sim sim, não não, pois, claro claro, é isso, sem olhar para ela. E em poucas semanas a T. pegou, sugou, colou. Não me largava, pior do que uma febre. Lançava umas frases cada vez mais entrecortadas, cada vez mais sem fôlego. Tudo o que dizia, dizia-o rápido e ininterrupto. Só quando não apareceu durante uns dias, e que dias de alegria, percebi que se preenchera de notícias culturais, pois não falava de si. Não lhe conhecia família e nunca a vira acompanhada. Sabia que andava por aí. Como não cheirava mal, supus que não dormia na rua. Algum dinheiro tinha, pelo menos para o Público. Quando esses dias acabaram, ao ver aquele cabelo ruivo contornar as cadeiras do café, decidi ter mais paciência. Pensei descobri-la. Semanas depois, não descobrira nada, excepto que a boa vontade é volátil. Disse-lhe “T., a partir de hoje não quero que me chateie mais ao pequeno-almoço.” Que não percebia, que não sabia do que estava a falar. “É simples, T., não fale mais comigo.” Que a idade era um posto, que eu não a podia tratar assim. “Não me interessa nada disso.” Quando saiu intempestiva do café, meia-dúzia de pessoas bateu-me palmas: “Assim é que é.” Passaram-se meses, saiu o meu livro, encontrei-a na rua. Pediu-me desculpa porque não sabia com quem estava a falar e eu respondi-lhe que nada disso, que não se preocupasse e que na verdade o que eu queria era escrever, daí a minha reacção. Ficou de passar pelo café. Quando o fez, trouxe-me a boa-nova de já ter lido o livro. Como as críticas pelos vistos diziam que o fim era a melhor parte, começou pelos últimos capítulos. Por conseguinte, só conseguia falar-me do livro de trás para a frente, e mesmo assim sem sequência porque saltara de capítulo em capítulo. É assim, olhe desculpe, mas não percebi aquilo da Luciana. Cada um lê como cada qual, suponho. Desde então, cruzamo-nos sem rancor, ela pela forma como a tratei, eu pela forma como me leu. Hoje, depois do almoço, dei com ela no nosso café. Dois beijos e um abraço. Afonso! Como não me via há algum tempo, julgava que eu já não existia, segredou-me. Vinha afogueada e irritada porque ao almoço encontrara duas primas, uma direita, outra nem tanto. Estava ela muito bem, só à conversa, quando uma das primas chamou o INEM para a levar. Assinou o papel, não quis. Porque o mal dela era outro, sempre fora, disse-me. Era não querer a vida como a dos outros, não estar alinhada. Ela sabia melhor e por isso sofria. Mostrou-me os braços manchados de nódoas negras da última estada no hospital, para onde não voltava nem que a arrastassem. Não voltava. Uma das primas tinha dois filhos bebés e mesmo assim chamou o INEM. Palavras engolidas, palavras cuspidas. Porque eu, sim, eu sempre sofri. Porque eu, sim, eu sempre soube da desolação. Porque o meu mal, sim, é não querer o que os outros querem. O diagnóstico é simples, é este, se o Afonso está curioso. Eu vivo em inconformidade com o mundo, só isso.

Ciclo contínuo

Baleia Branca/Big Bang