Preciso de atirar os animais internos para o papel, numa purga diária. Se não os depuro, crescem. E há mais: quero um repositório do que faço, pouco ou muito. Por isso, que se lixe. Cada entrada será o que for e espero que isso ajude.

Ciclo contínuo

A história da T. lembrou-me a história da F. Duas mulheres, duas canoas à deriva. Não sabia que estavas tão doente, disse ela, sentada numa cadeira do hospital. O ar químico, o som do oxigénio a borbulhar na água e a conversa baixa cobriam a Ariana de circunstância. Era ela que estava tão doente, era ela que estava tão deitada. A F. visitava-a pela primeira vez nesse domingo e levava com a chapada de tudo. Amiga de infância, passara anos afastada, como é costume. Agora apanhava o comboio nas últimas estações. Não sabia que estavas tão doente. A Ariana riu-se, não conseguindo manter o laço na cabeça por causa da transpiração, e respondeu-lhe que parecia o Cebolinha. Três fios de cabelo que sobreviviam, uma careca infantil e reflexos finos do sol que entrava nas gotas de suor: esse domingo era realmente o dia em que Cebolinha desistia dos planos infalíveis. Mas isto passava ao lado da F., perdida na ideia de não saber a Ariana tão doente. Deixou-se acomodada no cadeirão e fitava um ponto qualquer da parede. Foi-me dizendo que era professora de Geologia e eu imaginei que tivesse uma vitrina de pedras cortadas ao meio, ainda mais inertes porque o que é exposto morre. A Ariana adormecia de minuto a minuto, a T. deambulava sobre minerais. Publicara um livro na Chiado e sentia-se angustiada porque nunca chegara às livrarias, e um livro sem livraria mal existe. Quando acabou a visita, a Ariana referiu-me que, mais do que sua amiga, a F. fora amiga da mãe, uma mulher que vivera do éter e das coisas vagas. Uns dias depois, a F. telefonou para a Presença e pediu-me um encontro como amigos mútuos da Ariana. E aí fomos nós. Ela, nos setenta, bebia uma limonada segurando a palhinha com a ponta dos dedos. Referiu a Ariana de passagem e disse que me achava uma alma velha. Melhor, uma alma reencarnada. Porque o ciclo das almas seguia num contínuo cósmico – aí sim nada se perdia, tudo se transformava. Concluiu que eu era uma alma apanhada numa das fases do ciclo. Claro que quis fugir, mas a F. bebia limonada daquela maneira, por isso nada feito. Vamos tratar-nos por tu porque quero falar-te de um assunto íntimo, continuou. Conhecera um rapaz brilhante numa mostra de cinema. Compadecera-se porque percebera logo que ele não estava em conformidade com o mundo. A expressão roubo-a eu à T. Mesmo sem o acordo do marido, acolhera-o dias seguidos em casa e aquilo parecia-lhe uma coisa boa. Era culto, interessado e cativante nos dias bons. Fugidio, irascível e frenético nos dias maus. Afastou-se da família porque via nela uma nova família e, claro, incompatibilizou-se. Ela suportou e diagnosticou-o, apesar de sempre combatida pelos pais, que preferiam tê-lo fechado em casa. E nisto a F. chorou e disse que a vida descera ao inferno. Agora não o podia largar, deitar fora, mas também já não aguentava os acessos maníacos, as descargas nervosas, o excesso de dependência. A vida era inferno, a vida era inferno. E o que faria ela? Como lidar com isto? Que se apagava assim, que não tinha por onde dar. Os espelhinhos incrustados no vestido lembravam os brilhos de suor da Ariana e pareceu-me que valia mesmo a pena desistir dos planos infalíveis. Explicou-me então que lera o meu livro e que me pedia ajuda porque, para além de alma velha, eu conhecia a deficiência intimamente. Pessoas assim. Qual alma velha, abracei-a e nada disse. Assim talvez disfarçasse não ter nada para dizer.

Entrada#1

Desolação